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A CONVIVÊNCIA COM O PRÓXIMO

 

Ao falar sobre a capacidade de nossos semelhantes em nos aborrecer estamos falando das frustrações, mágoas e irritabilidade que nossos semelhantes podem produzir em nós. Conforme veremos adiante, de antemão podemos dizer que nossas frustrações, mágoas e irritabilidade, são proporcionais àquilo que esperamos dos outros; quanto mais esperamos, mais sofremos.

Sempre que esse fato é comentado algum paciente pergunta quase angustiado: ¾ então não devemos esperar nada de ninguém? Não, não devemos. E é bom acostumarmos com essa idéia. Quanto mais esperamos de alguém, mais corremos o risco de frustrações, mágoas e irritabilidade. Portanto, é bom fazermos tudo aquilo que fazemos sem esperarmos nada em troca, fazemos por uma questão de consciência. Se algo de bom vier de nossos semelhantes será um lucro agradável e, se não vier nada, será normal.

O ser humano, apesar dos milhares de anos conseguindo se adaptar à natureza, conseguindo sobreviver às intempéries, aos terremotos, aos animais ferozes, às epidemias e à toda sorte de dificuldades e perigos que o mundo oferece, continua hoje sofrendo e sendo vítima daquilo que sempre lhe pareceu o menor dos perigos: seu semelhante e ele mesmo.

É muito difícil tratar dessa importante questão de nosso relacionamento com os outros e conosco mesmo de forma resumida e prática. Primeiro, devido ao risco de falar o óbvio e aquilo que todos já sabem e, segundo, corre-se o risco de falar coisas desagradáveis de se ouvir.

Durante toda nossa história podemos experimentar algum sofrimento, mágoa ou desencanto com nosso próximo e, não obstante, este sofrimento, mágoa e desencanto serão tão maiores quanto menos nos conhecermos e menos conhecermos nosso próximo. Aliás, conhecer nosso próximo só é possível na medida em que conhecemos nós mesmos.

Uma das maiores dificuldade de convivência entre as pessoas se baseia no fato do ser humano se apresentar um ser social por natureza e, simultaneamente, um ser egocêntrico. Por sermos sociais, somos incapazes de viver sozinhos no mundo e, por sermos egocêntricos somos, ao mesmo tempo, incapazes de conceder aos nossos semelhantes as mesmas regalias que nos concedemos. Portanto, sozinhos não conseguimos viver e, paradoxalmente, com o outro também é difícil.

Para compensar essa peça que a natureza nos pregou, fomos dotados de um atributo muito especial: somos capazes de mudar. Trata-se do livre arbítrio ou seja, da capacidade de mudanças, de procurar um amanhã melhor que o hoje. Normalmente nossa evolução acontece através de mudanças em posturas e em atitudes diante dos semelhantes e da vida. Neste trabalho vamos falar sobre as dificuldades da pessoa em conviver com seu semelhante e reservamos para outro escrito as questões relativas à convivência da pessoa consigo mesma.

Estando a pessoa sofrendo alguma mágoa ou frustração produzida por outra pessoa ou por circunstâncias do destino, será melhor pleitear uma mudança em sua própria postura diante dos outros e do mundo para que não se magoe e nem se frustre. Essa é a atitude mais sensata psiquiatricamente falando, principalmente porque o psiquiatra não tem acesso e não pode mudar o outro e nem o mundo.

Inicialmente, vamos considerar que a mágoa, o aborrecimento, a irritabilidade e a frustração são sempre de autoria da pessoa que se sente magoada, aborrecida, irritada e frustrada. São sentimentos que nascem na própria pessoa, portanto, a culpa, no sentido involuntário do termo, deve recair sobre quem está magoado, aborrecido, irritado e frustrado. É a pessoa quem alimenta tais sentimentos, é ela quem se deixa magoar, frustrar e aborrecer.

Assim sendo, em termos de sentimentos, o raciocínio mais correto é dizer que a pessoa deixou-se magoar por fulano e não que foi magoada por ele. Não deve ser fulano quem nos irrita mas sim, nós nos deixamos irritar por fulano. Portanto, como se vê, nossos aborrecimentos têm uma origem dentro de nós, são sentimentos nossos.

Primeiramente, se nos sentimos magoados, aborrecidos, irritados e frustrados sem que essa tenha sido a intenção do outros, a culpa é de nossa sensibilidade. Estão nessa situação os sentimentos de humilhação que experimentamos quando nosso orgulho é ofendido. Ora, estamos falando de nosso orgulho. Ou nos sentimos magoados quando achamos que não estamos sendo gostados o tanto que gostaríamos de ser gostados. Ora, a quantidade que gostaríamos de ser gostados é nossa pretensão, portanto, de nossa exclusiva responsabilidade. Ou nos sentimos frustrados porque o outro não satisfaz nossas expectativas. Ora as expectativas são construídas por nós, portanto, de nossa autoria.

Em segundo lugar, mesmo sendo intenção dos outros nos magoar, humilhar, frustrar ou irritar, se estivermos muito bem conosco mesmo, jamais nos deixaremos abater por tais sentimentos. A fragilidade sentimental (afetiva) favorece nossa vulnerabilidade às más intenções de nossos semelhantes.

Nossas frustrações costumam ser proporcionais às nossas pretensões. Quem deseja ser sempre obedecido incondicionalmente, com certeza terá muitas oportunidades na vida para sentir-se frustrado. Da mesma forma quem deseja ser sempre e por todos compreendido, amado, aplaudido, respeitado, etc. Muitas vezes nos magoamos por sentir que não estamos sendo gostados o tanto que gostaríamos de ser gostados, nos sentimos humilhados por não sermos prestigiados o tanto que achamos que merecemos, e assim por diante.

Uma das causas de nossas frustrações é também a sensação de falta de reciprocidade, ou seja, quando não fazem conosco ou para nós o mesmo que acreditamos ter feito (de bom) aos outros. Isso significa que fazemos alguma coisa na esperança de um retorno com lucro. As pessoas se irritam ao esperar na fila porque, normalmente, não gostam de deixar ninguém esperando por elas. A realidade nua e crua, é que as não gostamos de deixar outros esperando porque não gostamos de esperar, somos gentis no trânsito na expectativa de que sejam gentis conosco, damos esmolas porque não gostamos de nos sentir sem dinheiro, somos honestos porque esperamos honestidade dos outros… Como vemos, nosso parâmetro de bondade, caridade, compreensão, etc. é sempre nós mesmos.

Essas pretensões para que nossos próximos façam isso ou aquilo, que procedam dessa ou daquela forma nascem e existem dentro de nós. Mas, por outro lado, nosso semelhante também tem, tal como nós, suas pretensões. Aliás, as mesmas pretensões que temos. Ora, como poderíamos pretender um equilíbrio harmônico entre duas pessoas que pretendem, simultaneamente, serem ambos admirados, gostados, respeitados, obedecidos, etc. se essas pessoas não entenderem que ambos são iguais? Frustrar-se e magoar-se porque meu próximo também pretende ser admirado, gostado, respeitado e obedecido é, no mínimo, um grande contra-senso.

Para entendermos nosso semelhante basta consultarmos nossas próprias pretensões, pulsões, inclinações e anseios (é por isso que ele se chama nosso semelhante). Portanto, tudo começa com a consciência à respeito de nós mesmos.

1- Irritar-se e Magoar-se com Nosso Próximo

Temos que dividir essa questão em 3 tipos de próximos:

a) os muito próximos, que são aqueles com quem convivemos mais intimamente;

b) os socialmente próximos, que são as pessoas com as quais nos relacionamos, de uma forma ou outra, na vida em sociedade e;

c) os pouco próximos, que são as pessoas em geral, representantes de nossa espécie ou de nosso grupo social com os quais não temos um contacto direto.

A – Os muito próximos

Estão incluídas aqui os familiares mais próximos, como os cônjuges, filhos, pais, irmãos e amigos íntimos. Sendo esse outro uma pessoa muito próxima, alguém de quem gostamos, nossa exigência para com ele será maior, e será tão maior quanto maior for nosso apreço à ele.

Esses muito próximos nor

malmente nos irritam porque sentem frio ou calor demais, são desorganizados, deixam a torneira pingando ou implicam com a torneira que deixamos pingando, apertam o tubo de creme dental no meio ou se irritam quando fazemos isso, chegam tarde, não dão flores, não valorizam nosso serviço, não gostam das coisas que gostamos, não são tão responsáveis quanto nós, são muito exigentes, têm péssimo gosto musical, se preocupam com besteiras, são muito despreocupados, não retribuem tudo o que lhes fazemos, não têm sentimentos de gratidão para conosco, não nos compreendem, não gostam de nós o tanto que gostamos delas, não lembram datas importantes para nós, não odeiam as pessoas que odiamos, conseguem ficar indiferentes quando estamos irritados e assim por diante.

Exigimos dos nossos muito próximos que concordem com nossos mesmos princípios e pensamentos senão, obviamente, estão errados. Exigimos que se comportem, pensem e julguem tal como faríamos e se, porventura estiverem em desacordo com esse ser especial que somos nós, será motivo suficiente para nos irritar.

Para estarmos de bem com nossos muito próximos, até seus sentimentos devem ser iguais aos nossos: devem antipatizar-se com as pessoas das quais não gostamos, devem achar imoral aquilo que achamos, devem preferir tudo aquilo que preferimos e desprezar tudo que não gostamos, devem ser muito gratos à nós e nos gostar na medida em que achamos justo e assim por diante.

Exigimos dos muito próximos que nossos desejos não sejam apenas atendidos, mas também adivinhados, sem que tenhamos de explicar quais são esses desejos, pois, explicando e pedindo uma postura desejável não seria espontâneo, como gostaríamos que fosse. É muito importante que nosso muito próximo saiba exatamente o que nos agrada, tenha nossa mesma escala de valores e faça seus julgamentos com nossos mesmos critérios.

Há pessoas que não se dão conta dessa nossa exigência desmedida em relação ao nosso muito próximo. Consideram a mágoa e irritabilidade provocada em nós por nosso muito próximo como uma resposta emocional correta, adequada às injustiças e às questões de certo e errado. Mas, quais são esses critérios de justiça, de certo e de errado?

Ora, seria um enorme contra-senso nós, pessoas maravilhosas que somos, estarmos defendendo conscientemente o injusto e o errado. Supomos, então, que tudo aquilo que pensamos e julgamos é certo e justo. Entretanto, este certo e justo são frutos exclusivos de nosso ponto de vista e não do ponto de vista de nosso próximo.

Na realidade nos magoamos muito quando nossas expectativas em relação ao nosso muito próximo não são satisfeitas, quando ele não se comporta do jeito que comportaríamos se fôssemos ele. Nos magoamos quando ele não sente o mesmo que sentiríamos se fôssemos ele. Resumindo, nos magoamos sempre que este nosso muito próximo age, pensa e se comporta diferente de nós mesmos, diferente daquilo que desejamos, diferente daquilo que achamos certo, enfim, diferente de nós.

É sadia a idéia de não ser nosso próximo quem nos irrita mas sim, nós quem nos deixamos irritar por ele. Sempre que nosso muito próximo proceder de forma contrária àquilo que esperamos dele nos irritamos. Esse ser tão especial como nós, jamais poderá ter seus conceitos, idéias e julgamentos contrariados.

Isso nos faz voltar à questão de nossa frustração ser proporcional às nossas pretensões. Se pretendemos que nosso muito próximo seja como nós, pense igual à nós, julgue como nós e dê valor às coisas absolutamente como nós, podemos nos considerar frustrados e irritados desde já, pois, ele não é nós, ele é ele. Não adianta nos frustrarmos diante da eventual ingratidão desse nosso muito próximo para conosco, apesar de tudo o que fazemos por ele. A pretensão da gratidão e de reciprocidade nasce em nós. Também não adianta nos frustrarmos porque nosso muito próximo não antipatiza com as mesmas pessoas que nos são antipáticas ou não goste tanto das pessoas de quem gostamos; seus sentimentos são diferentes dos nossos.

Não há erro no fato de nosso muito próximo ser diferente de nós, ou seja, ele não é culpado pelo simples fato de ser uma pessoa diferente de nós. O erro é pretendermos que ele seja como nós e essa pretensão para que ele seja como nós é nossa, ou seja, a culpa por estarmos decepcionados, magoados e irritados é nossa.

Diante da irritação e mágoa proporcionadas por esse nosso muito próximo diferente de nós, podemos ter duas atitudes possíveis:

1 – Pretender uma mudança em nós mesmos de forma a aceitar nosso próximo tal como ele é e sem que isso nos magoe, nos irrite ou nos frustre ou;

2 – Pretender uma mudança em nosso muito próximo de forma a torná-lo mais parecido com aquilo que gostaríamos que fosse e, com isso, sofrermos menos.

Essas duas questões merecem uma reflexão maior. Nem uma nem outra atitude deve ser absoluta e definitiva. Devemos avaliar uma posição sensata e intermediária, analisar os custos (emocionais) e os benefícios para optar entre uma coisa e outra.

B – Os Socialmente próximos

Socialmente próximos são aqueles com os quais convivemos em sociedade mas não temos uma convivência mais íntima. São pessoas com as quais convivemos nas filas, no trânsito, no trabalho, nas aglomerações, nos estádios, nas igrejas, na rua, na festa, enfim, pessoas que fazem parte da sociedade na qual vivemos.

A tensão e o stress são manifestações emocionais possíveis e importantes que resultam de nossa desarmonia com esses nossos socialmente próximos. Depois de um dia cheio, de uma semana agitada, enfim, depois de algum tempo vivendo a agitação da vida moderna, o esforço que fazemos em conviver com esses nossos semelhantes acaba resultando em tensões emocionais importantes.

Nesta questão é fundamental nos adaptarmos à vida em sociedade. Muito embora as situações da vida moderna dos grandes centros despertem em nós um certo inconformismo, devemos nos manter sempre adaptados à nossa realidade. Caso essa adaptação não seja satisfatória corremos o risco de adoecer, tanto emocionalmente quanto fisicamente.

Saber a diferença entre o conformismo e adaptação é muito importante para adotar uma atitude sadia. Aceitar com indiferença a situação presente, sem nenhuma energia para procurar mudanças é estar conformado. Isso não é sadio e não contribui para melhorar nossa vida e nossa personalidade. Reclamar, protestar, achar que não está bom e procurar novas atitudes deve fazer parte de um inconformismo sadio e desejável de cada um.

Por outro lado, adoecer e passar mal devido às circunstâncias adversas atuais é, não apenas estar inconformado mas, também, estar desadaptado. Diante do trânsito congestionado, de uma fila grande e demorada, das dificuldades do cotidiano devemos estar sempre inconformados e, por causa disso, procurar mudar alguma coisa no sentido de nosso amanhã ser melhor que hoje. No entanto, ficar hipertenso, taquicárdico, com palpitações, com ansiedade exagerada, pânico, etc., devido à essas dificuldades é estar desadaptado.

A adaptação ao nosso socialmente próximo depende da nossa consciência sobre a natureza de nossos semelhantes, consciência esta baseada sempre na consciência que temos de nós mesmos. É muito comum reprovarmos nos outros atitudes que não temos necessidade, coragem ou não nos permitimos tomar. Algumas dessas atitudes que reprovamos nos outros resultam de inclinações e pulsões que nós também temos mas, por uma questão ou outra, não nos permitimos realizar.

Ambição, desejo de vantagem, desejo de ser gostado, respeitado, ouvido, prestigiado, retribuído, agradecido, etc., são pretensões que não existem apenas em nossos semelhantes. Elas estão muito presentes em nosso próprio ser. A única diferença é que, em nós, essas aspirações naturais se manifestam de maneira diferente.

Ora, se eu tenho que chegar ao b

alcão do açougueiro mantendo-me pacientemente na fila, irrita-me constatar que alguém lá chegou passando na frente. Esse alguém tem o mesmo desejo que nós de ser atendido logo e seus métodos ousados produzem irritação em nós, incapazes que somos de agir igual . É nossa expectativa de reciprocidade não atendida a causa do sentimento. Diz um ditado que o condenado se consola na dor do semelhante.

Se acreditamos que somos rápidos no caixa do banco, irrita-nos a demora do cliente à nossa frente. Ele tem a tranqüilidade de tratar de seus assuntos sem se preocupar com os demais, coisa que não nos permitimos. Estar inconformado com situações assim é natural e normal. Esse inconformismo faz protestar, reclamar, procurar outros horários, enfim, tentar mudar alguma coisa. Estar desadaptado à essas situações significa, além do inconformismo, também ficar extremamente angustiado, com dor de estômago, pressão alta, deprimido, etc.

Quando nossos semelhantes conquistam os mesmos objetivos que gostaríamos de conquistar utilizando métodos diferentes dos nossos, temos tendência a nos desagradar. Causa constrangimento saber que nosso semelhante chegou onde queremos chegar usando algum atalho que não soubemos ou não nos permitimos usar. Irrita saber que ele fez o mesmo que fizemos ou mais, gastando menos, com menos esforço, com mais sucesso…

Para justificar nossas mágoas, irritabilidade ou frustrações com nosso socialmente próximo costumamos alegar questões de justiça, do certo e do errado. Voltamos a enfatizar a grande diferença que há entre as pessoas sobre esses conceitos de justiça, de certo e de errado.

Motoristas, por exemplo, que estacionam em fila dupla para apanhar o filho na saída da escola ou atravessam o sinal fechado, justificam essas atitudes à si próprios com motivos e alegações plausíveis, muito embora sejam contravenções às leis do trânsito. Podem haver razões pessoais para se acharem certos, entretanto, as pessoas que não necessitam recorrer à essas atitudes ou conseguem outras alternativas se irritam com isso.

Não faltam justificativas pessoais para aqueles que furam fila, que jogam lixo em locais indevidos, que não dão esmolas ou que dão, aqueles que trafegam muito lentos ou muito rápidos, enfim, as circunstâncias de cada um determinam atitudes amplamente justificáveis para si mesmos.

Alguns chavões sócio-culturais que ninguém ousa contestar podem ser usados para justificar muitas atitudes, como por exemplo, a segurança pessoal, a segurança dos familiares, a estabilidade econômica, as urgências cotidianas que obrigam tomar esta ou aquela atitude, a carência, fome, desemprego, etc. Enfim, na cabeça de nosso socialmente próximo sempre há uma justificativa pessoal para que ele proceda dessa ou daquela forma mas, para nós, que não vivemos sua realidade, essas justificativas não são válidas e acabam nos irritando.

Para melhorar a convivência com nossos socialmente próximos precisamos melhorar nossa adaptação. Como dissemos, é permitido e até desejável estarmos inconformados com alguns desses nossos semelhantes, inconformados com o fato de termos de engolir alguns desses nossos socialmente próximos com seus métodos estranhos de se portarem. O inconformismo é importante para nos empenharmos em mudanças e novas atitudes numa tentativa de melhorar nosso amanhã. Entretanto, a compreensão, complacência e tolerância são as armas com as quais lutaremos para nos adaptar e nos manter sadios.

Um dos argumentos possíveis para que tenhamos a compreensão, a complacência e a tolerância necessárias à adaptação é a valorização consciente de nossa saúde e bem estar. Considerando que a saúde e o bem estar são nosso patrimônio mais valioso, colocá-lo à mercê de terceiros é um risco muito grande. Permitir que pessoas outras, nem tão íntimas, nem tão queridas, possam comprometer nosso maior patrimônio e, indiretamente, comprometer o bem estar de nossos familiares é muito insensato.

Ao permitirmos que as querelas do cotidiano, que atitudes corriqueiras ou pouco importantes de nossos socialmente próximos nos magoe, aborreça ou irrite, estaremos colocando nosso bem estar, nossa felicidade e até nossa saúde nas mãos de pessoas desconhecidas, de pessoas que não se importarão nem um pouco com nossa pessoa e, muito menos com nosso estado.

De fato, para nos mantermos imunes às influências danosas que aqueles socialmente próximos são capazes de exercer sobre nós, devemos alimentar um estado de espírito (humor ou estado afetivo) elevado o suficiente para não nos sensibilizarmos com suas atitudes.

É bom lembrar sempre que nosso coração é muito importante para fazê-lo sofrer por alguém que nem conhecemos muito bem ou nos é totalmente estranho. O mesmo se aplica à nossa pressão arterial, ao nosso estômago, enfim, todo nosso ser é demasiadamente importante para nos submetermos à estranhos. É bom lembrar sempre que nossa imunidade depende exclusivamente de nós mesmos e não de nossos socialmente próximos. Somos nós quem nos concedemos ou não essa imunidade.

Vai para a 2a. parte

 

OS VALORES E A REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE

 

 

 

Nossos sentimentos experimentados diante dos fatos e das pessoas, sejam eles empáticos, apáticos ou antipáticos, por exemplo, sejam eles de prazer ou de desprazer, de felicidade ou tristeza, etc., dependerão dos valores que atribuímos à realidade. Esses valores, entenda-se, serão sempre uma atribuição do sujeito (capaz de atribuir valores) e não do objeto. Os objetos não se auto-atribuem valores.

Portanto, a representação da realidade, de fato, repousa na capacidade da pessoa atribuir valores, isso é o mesmo que construir uma concepção ontológica individual do real. Segundo o filósofo Nicolai Hartmann, existiriam quatro categorias de valorização possíveis de atribuir-se à realidade no sentido de construir-se uma representação pessoal da existência. Seriam os valores materiais, vitais, anímicos e espirituais . Cada uma dessas categorias necessitaria da anterior para existir e cada uma delas procura se emancipar da anterior.

Para estudarmos as Alterações da Representação, como propõe esse capítulo, teríamos que avaliar as eventuais alterações nessas quatro categorias de valorização do real. Vamos pensar em cada uma dessas categorias separadamente, apesar de sabermos que em nosso interior todas quatro estão intimamente e dinamicamente atreladas umas às outras.

Categoria Material de Valorizar a Realidade

Com a categoria material nos referimos ao corpo, ao fisiologismo da senso-percepção, ao componente neuro-psico-biológico necessário para o contacto primeiro com o mundo que nos rodeia. Construir a realidade a partir do orgânico humano implica na integridade dos órgãos dos sentidos, na integridade das vias nervosas sensitivas, na integridade do Sistema Nervoso Central (SNC) e, principalmente, na capacidade integradora desses estímulos no SNC. Estamos falando das habilidades senso-perceptivas e de suas variações.

A representação da realidade, baseada na categoria material de conhecer o mundo, se dá através da percepção e da sensibilidade perceptiva que a pessoa tem da realidade consciente, anteriormente através dos estímulos que apreendemos pela primeira vez, em seguida, através da transformação dessa percepção em realidade consciente e, por fim, através das percepções posteriores à realidade consciente, onde entram em ação as capacidades de memória, de representação e de integração do SNC.

Sendo diferentes as constituições orgânicas entre as pessoas, diferentemente valorizarão a realidade sob o ponto de vista material (orgânico). Assim sendo, não devemos pretender que uma melodia, uma pintura, um estilo arquitetônico, um requinte culinário, uma paisagem, uma temperatura ambiente ou uma flor sejam igualmente valorizados entre diversas pessoas, nem pretender que
nosso próximo valorize qualquer evento da mesma forma como o valorizamos.

Categoria Vital de Valorizar a Realidade

A pessoa aqui e agora pode ser entendida como uma resultância daquilo que ela trouxe ao mundo com aquilo que o mundo lhe deu (fenótipo = genótipo + ambiente). Na categoria vital de valorizar a realidade interessa aquilo que a pessoa trouxe ao mundo, ou seja, seu perfil vital, diga-se, seu perfil personal, diga-se ainda, a constituição básica de sua personalidade. Kurt Schneider se utilizou desse sistema, em seu livro Psicopatologia, para apoiar a idéia das Depressões Vitais, dentro das Alterações Depressivas do Humor. Segundo Schneider, essas depressões vitais seriam estados afetivos (depressivos) originários do interior da pessoa, de sua sensibilidade afetiva constitucional. Assim como existem pessoas constitucionalmente introvertidas, existiriam também aquelas constitucionalmente mais sentimentais. Através desses sentimentos vitais a realidade teria uma representação pessoal que ultrapassa o meramente real e concreto. Ela estaria atrelada à valores afetivos e sentimentais.

As concepções pessoais da realidade e os sentimentos determinados por nossa categoria vital não seriam baseados exclusivamente em situações reais. Em psiquiatria, quando um sentimento é conseqüente à uma situação real e de fato, chamamos de reativo (em reação à…). A depressão associada à situações reais seria uma Depressão Reativa, ou seja, uma reação depressiva à algum evento desencadeante. É o caso, por exemplo, dos sentimentos depressivos que experimentamos diante de perdas concretas.

Outras conseqüências emocionais à situações reais seriam ainda o Transtorno de Ajustamento com sintomas depressivos ou a Reação Pós-Traumática ao Estresse, quando então a pessoa reage à mudanças de vida e acontecimentos desencadeantes. Existem ainda, por outro lado, estados emocionais que valorizam situações imaginárias, representado por exemplo, pela Neurose Depressiva ou, como se prefere atualmente, pelos casos denominados de Distimia, mais leves, ou pelo Episódio Depressivo Leve.

Fossemos adequar essa categoria vital de valorizar a realidade na teoria jungueana , possivelmente encaixaríamos aqui os tipos psicológicos introvertido e extrovertido. Os introvertidos são pessoas que se relacionam centripetamente com o mundo objectual à sua volta, apreendem os objetos, refletem mais do que agem, recebem a realidade mais reservadamente (dando a falsa impressão de apatia e indecisão), tendem à maior complacência, percebem significados simbólicos nas coisas… Enfim, são o contrário dos extrovertidos.

Os extrovertidos, também de natureza vital, são centrífugos, se deslocam e influenciam o mundo objectual, são mais voltados para ação, se entusiasmam mais facilmente, experimentam com intensidade os estímulos externos. Desta forma, não podemos pretender que uma pessoa extrovertida valorize a realidade da mesma forma que outra introvertida. E mesmo dentro dos introvertidos não podemos pretender que existam duas valorizações da realidade exatamente iguais, sabendo de antemão que a sensibilidade pessoal de cada um é diferente, apesar de serem ambos introvertidos.

É por causa dessa maneira vital de valorizar a realidade que não podemos pretender estabelecer rígidos critérios para que o outro perceba e valorize os fatos da mesma maneira como o fazemos. De nada adiantam os conselhos, bem intencionados, é claro, sobre como fulano deveria estar se sentindo diante de um determinado problema. Nossos conselhos e opiniões são baseados naquilo que sentiríamos caso estivéssemos expostos ao mesmo tipo de situação, entretanto, absolutamente, isso não quer dizer nada.

Categoria Anímica de Valorizar a Realidade

Considerando o que foi dito antes, sobre a pessoa aqui-e-agora ser entendida como uma resultância daquilo que ela trouxe ao mundo com aquilo que o mundo lhe deu (fenótipo = genótipo + ambiente), para a categoria anímica de valorizar a realidade interessaria a pessoa aqui e agora (fenótipo). O humor, responsável por esse tipo de valorização da realidade seria o estado afetivo e emocional atual no qual se encontra a pessoa. Este estado de humor atual tem em sua base, tanto os elementos constitucionais responsáveis pelo perfil afetivo de cada um (sensibilidade da personalidade), quanto os resultados da ação do destino pessoal de cada um. Vale aqui o ditado segundo o qual “cachorro mordido de cobra tem medo de lingüiça”.

Avaliar a realidade sob o ponto de vista anímico implica em impregná-la com a tonalidade afetiva da personalidade, entendendo-se por personalidade uma constituição dinamicamente atualizada. Enquanto a categoria vital confere uma maneira perene e continuada de se relacionar e valorizar o mundo, a categoria anímica é dinâmica. Exemplo disso são as mudanças de valores durante a vida de uma pessoa, ou mesmo durante um mesmo dia de sua vida, dependendo de seu estado de humor. Pequenas variações anímicas são possíveis ao longo dos dias ou das horas, grandes e sólidas variações anímicas se dão ao longo dos anos.

Para a psiquiatria esse tipo de valorização decorre da sensibilidade afetiva pessoal e circunstancial. Não se trata apenas da valorização baseada na constituição vital de cada um mas, sobretudo, na valorização momentânea e pessoal das situações reais e imaginárias baseada na tonalidade afetiva e sentimental do momento.

Outra peculiaridade da categoria Anímica é a eventual e substancial mudança dessa modalidade de se valorizar a realidade ao longo da vida. Segundo a teoria jungueana, podem ocorrer grandes mudanças na valorização da realidade durante nossas vidas. Essas mudanças de valores e conceitos, de acordo com Jung, costumam acontecer, normalmente, depois dos 30 anos de idade para as mulheres e dos 40 para os homens. É quando ocorre a passagem da fase chamada natural para a fase cultural de nossa vida. Por esta ocasião os valores sofreriam grande e substancial alteração; muito daquilo anteriormente importante deixa de sê-lo e vice-versa.

Dentro do aspecto anímico de valorizar a realidade teríamos as diferenças de valoração de um mesmo problema por diversas pessoas, já que cada qual estaria representando a realidade com humor (ânimo) diferente ou, para ser mais contundente, teríamos até diferentes maneira de valorizar um mesmo problema em dois momentos diferentes numa mesma pessoa, dependendo de seu estado atual de humor.

Os problemas e as adversidades serão enfrentados de maneira muito diferente entre uma pessoa atualmente insegura e outra segura de si, entre uma pessoa otimista e outra pessimista, entre uma pessoa estável e outra ansiosa e assim por diante. Estando uma pessoa estressada, esgotada ou deprimida a valorização da realidade se dará de forma muito mais sofrível e ameaçadora, os problemas terão dimensões muito mais traumáticas, os desafios terão perspectivas muito mais sombrias.

Categoria Espiritual de Valorizar a Realidade

Avaliação espiritual da realidade é aquela que mais se afasta da realidade objetiva, assim como teria tendência em afastar-se também das influências sensitivas, vitais e anímicas. Essa irreverência espiritual para com a realidade objetiva não reflete uma atitude fantasiosa, como acontece no mundo mágico da criança. Trata-se, sim, de um encontro especial de significações para os aspectos mais abrangentes da vida, da existência e até do não existir mais.

Alguns pensadores associam à categoria espiritual de valorizar a realidade os elementos relacionados à Angústia Existencial. Esta Angústia Existencial seria patológica à medida em que se traduz em ansiedade antecipatória, à sensação de abismo, solidão, desconhecido… e seria normal ou fisiológica sempre que servisse à ampliação da consciência que temos do mundo e da vida.

Os sentimentos espirituais são aqueles que tendem para a valorização intelectual, estética, m

oral e religiosa. A categoria espiritual de valorizar a realidade diz respeito ao modo de ser e de vir-a-ser no mundo, bem como avalia a relação entre o ser e a vida. É aqui que se polariza a questão existencial mais importante do ser. Esta base de sustentação existencial deveria proporcionar conforto e bem estar, entretanto, na sua falta ou enfraquecimento, a ansiedade torna-se opressora, a angústia se exacerba e há retorno para categorias inferiores de valorização da realidade. Volta-se a questões afetivas, constitucionais ou exclusivamente materiais.

Há um ditado, segundo o qual, “quem está bem consigo não se deixa perturbar pelos demais”. Esse seria o exemplo da pessoa espiritualmente bem. Essa pessoa teria plena consciência de seu ser e, portanto, não se perturbaria com eventuais opiniões dos demais à seu respeito; não se sentiria diminuído ou humilhado, nem glorificado e exaltado pois, como dissemos, teria plena opinião à respeito das dimensões de seu ser, independentemente das adulações e contrariedades ambientais.

O desenvolvimento da valorização espiritual pode, com freqüência, atenuar alterações mórbidas determinadas pelas outras categorias inferiores e, em casos patológicos, pode determinar profundos sentimentos depressivos, tendo como pano de fundo a angústia patológica. Evidentemente trata-se, a valorização espiritual, da maneira mais eficiente para a adaptação do ser ao seu mundo e à sua vida.

COMO REAGIMOS À REALIDADE

Poderíamos chamar esse capítulo de INTERAÇÃO DO SUJEITO COM A REALIDADE, ou INTERAÇÃO DO SUJEITO COM O OBJETO. A todo contacto do sujeito com a realidade, seja esta realidade representada pelo outro, pelo fato, pelo evento, etc, haverá sempre por parte do sujeito uma reação à ela na forma de emoções e sentimentos. Esta reação esboçada pelo sujeito ao interagir com a realidade chamamos de Reação Vivencial.

Para entender melhor devemos considerar o que e como são essas Reações Vivenciais e, antes disso até, o que são, de fato, as Vivências. As experiências subjetivas acerca daquilo que vivemos, devidamente valorizado e particularmente representado dentro de nosso ser são as nossas VIVÊNCIAS. Estas são, então, nossos conteúdos conscientes dos dados perceptivos, representativos, ideativos e emotivos em nossa mente ou, de fato, o que estamos vivendo ou foi por nós vivido.

Perder o emprego, por exemplo, pode tratar-se simplesmente de um dado objetivo, quando consultamos seu significado no dicionário ou, por outro lado, pode tratar-se de uma Vivência, quando se trata de perdermos nosso emprego. Neste caso seu significado ultrapassa o dicionário porque está acontecendo conosco, fazendo parte de nossa vida, sendo representado particularmente em nosso interior. Neste caso então, perder o emprego tratar-se-á de nossa Vivência.

Assim sendo, Reação Vivencial é a resposta emocional ou sentimental a uma determinada vivência, ou seja, a maneira pela qual o aparelho psíquico reage às estimulações vivenciais. Um fato típico e fundamental é apresentado ao indivíduo e, a partir daí, determina uma experiência interna e subjetiva, individual e particular.

Tomando-se por base um FATO, considerado aqui um objeto, um acontecimento ou uma situação, ao ser experimentado por um ser humano passa a fazer parte de seu “eu”, será, então, introduzido em sua consciência. Uma vez introjetado na consciência este FATO jamais ficará isolado do universo íntimo de cada um. Fará parte do dinamismo que compõe nosso ser e pertencerá, de alguma maneira, à nossa pessoa.

Qualquer que seja o FATO introduzido em nossa consciência receberá, sempre, um tratamento representativo e particular de cada um. Como vimos acima, há várias maneiras de valorizarmos a realidade (material, vital, anímica e espiritual), entretanto, em termos práticos, consideramos maneiras mais atuantes no cotidiano comum das pessoas a anímica e a vital. Ambas dizem respeito à tonalidade e estado afetivo, portanto, passamos a considerar o afeto como o principal elemento a atribuir significado e valor aos fatos (pessoas, objetos, eventos, etc).

Assim sendo, os FATOS serão sempre coloridos pela afetividade de cada um, tal como se passassem por óculos individuais que fazem cada um enxergar o mundo de sua maneira. Finalizando então, o FATO tratado pela Afetividade será chamado de VIVÊNCIA, algo individual e particular a cada um de nós, de acordo com as particularidades de nossos traços afetivos. Os FATOS podem ser os mesmos entre as várias pessoas, as VIVÊNCIAS porém, serão sempre diferente.

Como exemplo médico, podemos dizer que as VIVÊNCIAS são capazes de determinar uma resposta emocional, tal como um alérgeno é capaz de determinar uma resposta imunológica (reação alérgica). A estes sentimentos e emoções produzidos pela vivência podemos chamar de Reação Vivencial, tal como chamaríamos de reação alérgica as manifestações determinadas pelo embate alérgeno-imunidade. Para que uma Reação Vivencial possa ser considerada normal, Jaspers recomenda 3 ingredientes: uma relação causal, uma relação proporcional e temporal .

1 – RELAÇÃO CAUSAL

Não se concebe uma Reação Vivencial normal sem que haja uma vivência causadora. A mãe, por exemplo, tendo sido surpreendida por uma febre alta em seu filho durante a noite, dever reagir emocionalmente a esta “causa” com sentimentos de angústia, ansiedade, apreensão, etc, enfim, sentimentos dentro da expectativa da concordância cultural para este evento. A febre do filho é a vivência causadora.

Há pessoas, emocionalmente instáveis, capazes de manifestar uma crise de angústia, choro ou desespero diante da possibilidade de vir a ser demitido, de vir a perder seus pais, etc. Obviamente, tratam-se de possibilidades, entretanto, não é normal viver experimentando exuberantemente tais sentimentos antecipadamente. As pessoas portadoras de algum transtorno de ansiedade podem experimentar desagradáveis sentimentos de tensão muito antecipadamente, como se o evento futuro fosse tomado por ameaça, porém, tal aspecto ameaçador habita exclusivamente sua consciência e está de acordo com sua maneira de valorizar a realidade.

2 – RELAÇÃO PROPORCIONAL

Em situações normais, os sentimentos determinados pela Reação Vivencial devem guardar uma compreensibilidade e proporcionalidade com a vivência causadora, ou seja, o conteúdo da reação acha-se numa relação compreensível com sua causa. Essa compreensibilidade é mediada pela concordância cultural que se tem sobre as coisas. Utilizando o exemplo anterior, não devemos esperar que a mãe do filho doente e febril atire-se janela abaixo ou descabele-se histericamente diante da situação. Igualmente, não se espera que ela manifeste sentimentos de exaltação e alegria transbordante mas, será compreensível ela apresentar sentimentos de ansiedade, medo, angústia ou inquietação proporcionais à causa.

Na tentativa de buscar sempre um aperfeiçoamento e melhora na maneira de vivermos, devemos ter em mente a questão da proporcionalidade de nossas Reações Vivenciais. Assim como somos perfeitamente capazes de julgar a proporcionalidade das Reações Vivenciais dos outros, podemos também avaliar as nossas. Uma atitude proveitosa seria imaginarmos ser possível sairmos de nós mesmos e, tal como um espectador imparcial, observarmos como estaremos nos conduzindo diante de nossas Vivências.

3 – RELAÇÃO TEMPORAL

Em seu curso temporal a Reação Vivencial deve depender da permanência da Vivência causadora, esmaecendo e, finalmente cessando algum tempo depois de desaparecer a causa. Ainda usando o mesmo exemplo anterior da mãe com filho febril, sua ansiedade e angústia deverão desaparecer quando a saúde do filho for restabelecida. O mesmo acontece, por exemplo, em relação à ansiedade de determinadas pessoas, ao aguardarem o resultado de um exame laboratorial ou o atraso indesejável da menstruação. Tal sentimento d

ever desaparecer tão logo os resultados sejam satisfatórios.

Emoções e Sentimentos

Inicialmente há necessidade de especificar o que são Emoções e o que são Sentimentos. Emoções são complexos psicofisiológicos que se caracterizam por súbitas rupturas de curta duração no equilíbrio afetivo, com repercussões consecutivas sobre a integridade da consciência e sobre a atividade funcional de diversos órgãos . Por outro lado, Sentimentos são estados afetivos mais duráveis, mais atenuados que as emoções em sua intensidade vivencial, geralmente revestidos de ricas e nobres tonalidades intelectuais e morais e não acompanhados, obrigatoriamente, de correspondentes sintomas orgânicos dignos de nota. Admite-se que os sentimentos possam provir das emoções que lhes são cronologicamente anteriores e com as quais guardam correlações compreensíveis, quanto aos seus conteúdos respectivos.

As emoções podem ser divididas em: Primárias, Secundárias, Mistas e Espirituais, conforme vão se afastando da sensação e se aproximando da espiritualidade. Há uma tendência biológica, portanto uma tendência animalesca, de fazer com que nossos sentimentos e emoções regridam à níveis inferiores sempre que houver ameaças concretas e diretas à sobrevivência. Isso quer dizer que podemos regredir da cordialidade e polidez para a cólera ou estado de choque diante de uma ameaça brutal à sobrevivência.

Diz um ditado que “quando a miséria entra pela porta da frente a virtude sai pela janela”. Pois bem. O que diferencia os seres humanos, já que todos temos esse potencial de regredir na escala das emoções, é o limiar além do qual cada um permite “sua virtude sair pela janela”.

Emoções Primárias

São assim chamadas por serem inatas e por esta-rem diretamente ligadas à vida instintiva, à sobrevivência. Entre elas temos a Emoção de Choque – é a chamada reação catastrófica de Goldstein, caracterizada por espanto ou susto e desencadeadas por situações que representam ameaça evidente. Haverá grande participação física, como por exemplo, a concomitante contração generalizada dos músculos flexores, sendo possível adotar-se uma atitude regressiva fetal, vasoconstrição periférica, palidez da face e esfriamento das extremidades, brevíssima parada dos movimentos respiratórios e batimentos cardíacos, logo seguida de acele-ração compensadora. Pode haver atitude de pânico, ora com tendência à fuga desatinada, ora com imobilidade.

Temos ainda, entre as primárias, a Emoção Colérica. Acontece como uma atitude dirigida à anulação de um objeto representado como incômodo, contrário à nossa inclinação natural ao prazer. Há, neste caso, reação agressiva contra o estímulo externo responsável pelo desconforto ou contrariedade.

Finalmente temos a Emoção Afetuosa. Trata-se de uma expressão de tranqüilidade e bem-estar, com tendência à lassidão, seguida de ampliação dos movimentos respiratórios e redução numérica dos batimentos cardíacos, desencadeada em reação ao apreço para com algum objeto ou situação que representa o prazer. É uma inclinação de fusão do eu com o mundo, ou no mundo. Essas são três primárias, integrantes do patrimônio afetivo básico ou original. As duas primeiras se acham a serviço da sobrevivência individual e, portanto, ligadas ao instinto de conservação, ao passo que a última relaciona-se com a inclinação ao prazer.

Como deduz-se, essas Emoções Primárias têm uma íntima relação com a modalidade material de valorizar a realidade. São primitivas e denotam uma surpreendente vulnerabilidade do sujeito aos objetos. Na interação interpessoal, tomando-se por base o ditado já citado e segundo o qual “quem está bem consigo não se deixa incomodar pelos demais”, percebemos que as Emoções Primárias podem refletir algum desconforto da pessoa em relação à si mesmo. Excluindo-se a Emoção Afetuosa e não havendo provas irrefutáveis de ameaça à sobrevivência, as Emoções Primárias normalmente dizem respeito à baixa auto-estima, insegurança, algum complexo íntimo…

Há quem diga que “atacar é a melhor defesa”, entretanto, a questão que se coloca aqui é a avaliação se, de fato, está havendo um ataque ou se, pelo contrário, é a pessoa que se sente atacada. Normalmente as pessoas mais inseguras são aquelas que mais se sentem atacadas, humilhadas, ofendidas… sentir-se assim costuma ser uma postura do sujeito que representa sua realidade dessa forma. Muitas vezes o defeito está nele e não na realidade.

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