Mistério insondável: Onde está o recém nascido?
Sempre gostei do Natal.
Isso porque a atmosfera natalina sempre me pareceu muito doce, amável e singela –
mesmo quando eu não sabia realmente o que isso tudo significava. Mas a sensação não
podia ser diferente, já que o Natal, no fim de contas, é um olhar sobre aquela amabilíssima
manjedoura. É a celebração daquele doce fato, consumado no passado, mas que
atravessa a história por estar centrado nAquele cuja existência é eterna.
A encarnação de Deus é, na verdade, um mistério insondável, mas um mistério que se
desdobra sobre coisas, digamos, bastante concretas. Noite, bebê, estábulo, pastor,
ovelha; tudo ilustrando a capacidade exclusiva de Deus de introduzir o transcendente no
“aqui e agora”, de misturar o abstrato com o concreto, de infiltrar vislumbres da eternidade
no espaço comprimido pelo tempo. O bebê ainda era Deus, mas um Deus que deixava-se
ninar no colo de pecadores.
A cena do nascimento de Cristo estava encharcada de simplicidade, humildade e da
graça divina em querer se identificar com o homem desde a infância. Mas, tomando a
liberdade de olhar a circunstância por outro ângulo, consigo ver ainda um outro ponto
especial na escolha de Deus de vir ao mundo sem pular a etapa inicial e simplesmente
surgir como um adulto pronto para iniciar seu ministério.
É que ao se fazer bebê (e depois, criança) Cristo se colocou na posição, talvez inédita, de
ser adorado sem ser cobrado. De ver homens se ajoelhando diante dEle sem antes Lhe
pedirem cura ou explicações sobre o sentido da vida, o porquê do sofrimento, o motivo de
Seu silêncio. Em outras palavras, mesmo conscientes da limitação de um bebezinho, os
pastores e sábios foram adorá-Lo como Deus. Se ajoelharam diante de seu Senhor
unicamente por quem Ele era, embora Ele estivesse naquele momento “inoperante”,
incapaz de realizar o mais básico, como chamar aqueles a quem conhecia por nome.
Antes mesmo de Ele poder se apresentar como a “água viva”, homens sábios andavam
quilômetros, possivelmente carregando uma quantidade limitada de água, em busca
simplesmente da companhia do menininho.
E, sabe, talvez seja por isso que a memória do Natal é algo tão doce. Porque não houve
nenhum outro momento na história em que as pessoas se sentiram tão seguras pela
presença de um bebê. Em que a necessidade de protegê-lo se misturava com uma
sensação de que Ele as protegia. Em que Deus não precisou fazer nada (aos nossos
olhos) – nem sinais, nem curas, nem mesmo falar as palavras certas ou tocar em seus
adoradores – para que nós o enxergássemos como Aquele de quem dependemos.
Portanto, encontrar Deus “pequenininho” na manjedoura é uma boa oportunidade de
encontrá-lo livre, como Ele é. Livre das nossas tentativas de defini-lo (mais ou menos o
que eu estou fazendo agora, não?), do nosso olhar cético, da nossa exigência de que Sua
revelação caiba em nossas caixinhas de argumentos.
E, de fato, tenho a impressão de que Deus raramente é descoberto por aqueles que
esperam encontrá-lo no fim de suas conjecturas, no horizonte de sua busca intelectual ou
no caminho linear da explicação.
Pois aqueles que O descobrem estão em outro caminho. São os que jogam uma
mochilinha nas costas numa noite gelada e saem seguindo uma estrela maluca, em busca
de alguém que não vai poder lhes oferecer nem um pãozinho de queijo na chegada. Por
aqueles dispostos a aceitar uma porção de fatos improváveis se preciso for. Por aqueles
que estiverem sensíveis a perceber que quando o bebezinho abre os olhos; ali, naquele
exato momento; naquele instante inatingível por qualquer razão humana; quando o
bebezinho abre os olhos, são os olhos de Deus que estão vendo.
1] https://www.youtube.com/watch?v=VA0EzQQZVnk
[2] Lucas 2:30
Meu nome é Ana Carolina, sou estudante de Química na Universidade Federal de Viçosa-MG. Tenho fascínio tanto pela linguagem matemática como pela linguagem das palavras,
e os livros são parte fundamental da minha vida.
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